Aos 35 anos, pretendo ir muito mais longe e é preciso acreditar também nos jovens oriundos da periferia

“Cria do Jóquei”

Nasci e fui criado no bairro Jóquei Clube, região norte de Juiz de Fora, Minas Gerais. Mais velho de três irmãos, desde pequeno queria ajudar os meus pais nas despesas de casa. Meu pai, Antônio Sérgio da Silva Mendes, era funcionário da Rede Ferroviária Federal, após ter sido paraquedista no Exército por três anos, e minha mãe, Jane Maria Loures Mendes, era dona de casa. Vender chup-chup nas horas vagas foi a solução encontrada para não prejudicar o estudos, nem as horas de brincar. Minha infância não teve luxo, mas foi muito feliz entre bolinhas de gude e futebol de botão. A imaginação corria solta e viajava tão longe quanto os meus sonhos.

A educação, em escolas públicas, me garantiu a base para a edificação de projetos sólidos, inicialmente na Escola Estadual Professor Teodoro Coelho. Na pré-adolescência, para evitar as aulas no período noturno, eu tive que estudar na Escola Estadual Clorindo Burnier, bairro Barbosa Lage, percorrendo uma longa distância e atravessando a pé a linha férrea, todos os dias. E ainda dividi o meu tempo, deixando de vender sacolé para entrar no ramo de salgadinhos. A Carteira de Trabalho foi assinada aos 14 anos.  Depois passei a trabalhar como balconista em uma locadora de vídeo game e o local passou a ser ponto de encontro de amigos e de disputas saudáveis. E nessa vida dividida entre “manetes” e livros, concluí o Segundo Grau, atualmente o Ensino Médio.

No 3º ano do Ensino Médio, consegui uma bolsa. Frequentando um curso no centro da cidade, eu tinha que me esforçar mais do que a maioria da turma para acompanhar as aulas. Ganhei até o apelido de “Gabarito”. E consegui concluir essa etapa.

Exército e concursos públicos

Depois do período escolar, entrei para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) e consegui ingressar no Curso de Formação de Oficiais Combatentes, da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Lá, percebi que os ensinamentos dos meus pais não foram em vão. Dei ainda mais valor à educação, à disciplina e à ética. Preceitos que o acompanham pela vida. Formei na Aman e voltei para Juiz de Fora. Eu até gostava da carreira militar e se tudo corresse conforme o esperado, seria coronel e até general. Porém, queria novos desafios, queria voar.

Voltei a estudar e fui aprovado no concurso público para Analista de Planejamento e Orçamento em Brasília. Três anos depois, passei para mais dois concursos, um do Senado e outro da Câmara dos Deputados. Recebi a convocação primeiro para o do Senado e, logo em seguida, para o da Câmara.

Eu pude conhecer a fundo toda a parte orçamentária da União. Isso porque a minha atuação na Secretaria de Orçamento Federal, era ser responsável pela elaboração da Lei Orçamentária Anual, o que me permitiu aprender muito, principalmente no setor da Educação, mais precisamente com o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) e com a alocação de recursos nas universidades. No Senado Federal fui indicado para participar dos trabalhos da Comissão Mista de Orçamento, tanto na análise de projetos quanto na votação dos mesmos. Já na Câmara dos Deputados, optei pela área administrativa.

Paralelamente, eu dava aulas. E um dia, decidi com outros três amigos, que tinham histórias parecidas com a minha, Heber Carvalho, Mário Pinheiro e Ricardo Vale, a iniciar um negócio: um cursinho preparatório para concursos. Cada um investiu R$5 mil, em 2011. Criamos um site para aulas on-line. Já no primeiro dia vendemos R$11 mil, mais da metade do investimento inicial. Parecia uma boa estratégia para complementar a renda. E acabou sendo a melhor estratégia para conquistar o sonhos.

De militar a empresário

Voltada para o público concurseiro, a empresa Estratégia nasceu de uma ideia que não era nova. Site com matérias on-line específicas para os grandes concursos. E não tinha garantia de êxito. O diferencial foi investirmos em material de qualidade, mais do que os concorrentes. Acompanhamos de perto cada fase do processo, convidamos os melhores professores, que abraçaram a ideia e se tornaram parceiros, e investimos em um bom trabalho de marketing. Nossa experiência também ajudou muito, afinal, todos já havíamos passado em grandes concursos. Os alunos gostam de se inspirar em histórias bem-sucedidas.

Atualmente temos aproximadamente 100 colaboradores, mais de 100 professores e sete diretores. Todos os diretores eram professores que conquistaram os cargos graças ao bom desempenho.

Nesse período, a empresa, que até então não possuía sede, precisou de um local para montarem o estúdio. Em Brasília, onde trabalhávamos como servidores públicos, passamos por três endereços. Até que mudamos para São Paulo. Na nova sede funciona a parte administrativa e estúdios de gravação. De lá, as aulas chegam a 15 mil novos alunos por mês, em média e temos mais de 900 mil alunos cadastrados.

De São Paulo para Ewbank da Câmara

O conhecimento acumulado aguçou a curiosidade de conhecer o processo eleitoral em um município pequeno, com menos de 20 mil habitantes. Em nível federal eu já conhecia. Eu queria ver o nível micro. Como funciona, ou não, a legislação nessas cidades? Será que tudo pode ser aplicado num município pequeno? Como eles fazem para cumprir tudo aquilo? Eu queria respostas.

Então decidi me afastar das funções administrativas da empresa e passei a atuar apenas como professor. Me candidatei a vereador em Ewbank da Câmara, município da Zona da Mata com pouco menos de quatro mil habitantes. Quinze dias de campanha de porta em porta me garantiram a eleição no pleito de 2016.

Atualmente estou finalizando a atualização da Lei Orgânica do Município, do Regimento Interno, que atua na criação de novas leis e no cumprimento das já existentes. Detectei graves dificuldades para a população, como a água, que não é tratada, e a dificuldade de transporte público intermunicipal. Infelizmente, percebi que esses e muitos outros problemas não dependem do Legislativo Municipal.

Mas não perdi o estímulo de ajudar as pessoas. Com recursos próprios, viabilizei o projeto Galpão da Luta, que atende 200 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, idealizado pelo Mestre Luiz Bento, sargento da Polícia Militar, inicialmente na Zona Norte de Juiz de Fora. Com essa iniciativa conseguimos tirar as crianças da rua. A prática do Muay Thai dá a elas mais disciplina e, principalmente, as mantêm focadas nos estudos, porque boas notas são indispensáveis para continuarem participando das aulas.

Também realizei palestras em escolas públicas para orientar e conscientizar os jovens a levarem os estudos a sério como forma de garantir um futuro mais promissor. Sabemos de todas as dificuldades da Educação Básica pública, mas não podemos deixar nossas crianças perderem seus sonhos. E isso só faz sentido quando feito por alguém que passou e venceu por meio do mesmo sistema de ensino. Acredito que, para haver transformação, é fundamental que exista um ensino de qualidade, através do qual as pessoas possam exercer sua capacidade crítica e analítica. Só a educação é capaz de formar cidadãos no sentido pleno da palavra.

E claro, tinha projetos para os animais. Nós sabemos que os problemas são bem maiores, é uma questão de saúde pública. É preciso voltar o olhar de forma mais crítica para esse tema. O controle populacional, através de castrações, campanhas de vacinação efetivas e a conscientização sobre o abandono, são imprescindíveis. Temos que criar cidadãos preocupados com a sociedade como um todo.

E agora, o futuro!

Hoje, olho para trás e vejo como tive que batalhar para conquistar os meus objetivos. Tive uma educação muito boa, mesmo com todas as dificuldades, a família era bem estruturada. Meus pais sempre valorizaram muito meus estudos e de meus irmãos. A preocupação com a formação de nosso caráter era primordial. A Aman também teve participação. O espírito de liderança, a dedicação e até o ato de falar em público são atributos que desenvolvi lá.

Nesse conjunto de fatores, também incluo minha esposa, Fabíula, que sempre me deu suporte. Ela teve as mesmas origens humildes no Sul do Brasil e também se apaixonou por Minas Gerais. Sem o apoio incondicional da esposa, nada disso teria acontecido. Nós crescemos juntos. E hoje temos a pequena Bianca e estamos aguardando mais uma menina que chega para aumentar a família. Construímos o futuro com as nossas mãos e vamos continuar batalhando pelos nossos sonhos.